domingo, 12 de julho de 2009

Fazu se prepara para repetir o sucesso do Simpósio de Plantio Direto

Para o próximo semestre, a Fazu (Faculdades Associadas de Uberaba) realiza o 2º Simpósio de Plantio Direto, que acontece nos dias 26 e 27 de agosto de 2009, no Tattersal da ABCZ, em Uberaba (MG). A iniciativa é do diretório Acadêmico de Agronomia.


O plantio direto é um sistema diferenciado de manejo do solo que visa diminuir o impacto da agricultura e das máquinas agrícolas. A utilização do plantio direto no lugar dos métodos convencionais tem aumentado significativamente nos últimos anos. Nele a palha e os demais restos vegetais de outras culturas são mantidos na superfície do solo, garantindo cobertura e proteção contra processos danosos, tais como a erosão. O solo só é manipulado no momento do plantio, quando é aberto um sulco onde são depositadas sementes e fertilizantes.


O mais importante controle que se dá nesse modo de cultivo é o das plantas daninhas, através do manejo integrado de pragas, doenças em geral e plantas infestantes. Também é muito importante para o sucesso do sistema que seja utilizado a rotação de culturas.


A seguir, entrevista feita pelo aluno Osório Barbosa Netto, com o Dr. Cícero Monti Teixeira, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), onde explica sobre o Sistema Plantio Direto (SPD) e comenta sobre a importância do evento na Fazu, no qual será um dos palestrantes.

 

Com o dinamismo da agricultura brasileira, como tem sido a evolução do SPD em nosso país?

A primeira semeadura sem revolvimento do solo que se tem notícia no Brasil foi em 1969, no Rio Grande do Sul, com a cultura do sorgo, utilizando-se uma semeadora importada da Inglaterra. Por duas décadas o sistema passou por uma evolução na região sul, onde pesquisas, com pioneirismo do Ipeame - Instituto de Pesquisa Agropecuária Meridional, vinculado ao Ministério da Agricultura, associados à adesão de produtores do norte do Paraná. No início da década de 1980 o SPD rompeu a fronteira dos cerrados, acelerando sua expansão, dado o tamanho das áreas incorporadas ao sistema, com destaque para a região centro-oeste.

 

Com a dimensão territorial brasileira, existe diferença no emprego do SPD para as diferentes regiões?

Sim, existem diferenças marcantes entre a região sul e os cerrados. Tais diferenças demandam ainda adaptações para que sejam realmente alcançadas as vantagens do sistema.

Na região sul, a melhor distribuição de chuvas, com inverno relativamente chuvoso, aumenta as chances de sucesso na condução de culturas exclusivamente para a produção de palha, ou para produção de grãos, com alta quantidade de restos culturais como o trigo, o centeio, a cevada e a aveia. Além deste fator, naquela região, o verão, com temperaturas amenas, aumenta a longevidade da palhada sobre a superfície do solo, permitindo o uso de leguminosas, as quais possuem relação carbono/ nitrogênio (C/N) mais baixa, adicionando mais nitrogênio no sistema, por meio da fixação biológica.

Nos cerrados, a produção e a manutenção de altas quantidades de palha sobre a superfície tornam-se mais difíceis devido às estações bem definidas, com seis meses de chuva e muito calor na primavera/ verão e seis meses de estiagem no outono/ inverno. Neste caso, a produção de palha fica restrita aos cultivos em safrinha, aproveitando as últimas chuvas do mês de março, após a cultura de verão, ou no início da primavera, dependendo da reserva de água no solo e da expectativa de chuva. Cabe ressaltar a importância de rotações de cultura que envolva gramíneas com grande retorno de restos culturais na colheita, com destaque para o milho, além da integração lavoura-pecuária, na qual a produção da forrageira necessita ser dividida entre pastejo e retirada do gado para formação de palhada para o cultivo subsequente.

 

Perante tantas vantagens, quais os entraves para o correto desenvolvimento do sistema?

O SPD se baseia na conservação do solo, promovida pela "cobertura morta," evitando o impacto direto das gotas de chuva e a consequente desagregação das partículas, seguida do arraste pela enxurrada. Além da proteção do solo contra o impacto direto, o aumento do teor de matéria orgânica promove maior agregação das partículas e, consequentemente, maior infiltração, evitando a ocorrência de enxurradas; maior aeração do solo, contribuindo para o enraizamento das plantas; aumento da micro e mesofauna; redução da oscilação térmica e da evaporação, conservando a umidade e; redução da germinação e emergência de plantas daninhas, por meio físico e alelopático, aumentando a capacidade de competição das culturas. Quimicamente, o SPD, com a utilização de plantas de cobertura com capacidade de enraizamento profundo, promove uma ciclagem de nutrientes, absorvidos em camadas não alcançadas pelas culturas; aumento da capacidade de troca de cátions e ânions oriundos da decomposição da matéria orgânica; redução da imobilização de fósforo; redução da lixiviação de nutrientes contidos na matéria orgânica e; complexação do alumínio, tóxico para as plantas, além de contribuir para elevação do pH. Ambientalmente, além da propriedade, o SPD contribui para a fixação do carbono atmosférico; redução do assoreamento de rios, lagos e reservatórios de hidrelétricas e; redução da oscilação da vazão de nascentes, por causa de maior infiltração, contribuindo para a reposição de lençóis freáticos. Cita-se ainda a redução dos custos de produção, dado o menor consumo de diesel pela redução do número de operações e da demanda de potência dos tratores.

 

Perante tantas vantagens, quais as limitações para chegar a essas vantagens?

A limitação para obtenção das vantagens do SPD é que, infelizmente, ainda falta convencer os produtores de que, sem a manutenção de palha na superfície do solo, estimada em sete toneladas por hectare ano de massa seca, para os cerrados, os benefícios citados não são alcançados, os quais são dependentes do aumento da matéria orgânica do solo, promovida pela adição de palha. O manejo inadequado culmina com a compactação proporciona pela pressão dos pneus do maquinário utilizado, o que leva a necessidade de voltar a revolver o solo, acelerando a decomposição da matéria orgânica.

 

Então, a condução adequada do SPD irá contribuir para o aumento da safra de grãos do país?

Em médio e longo prazo acredita-se que o manejo adequado do SPD é capaz de aumentar a produtividade das culturas, devido às vantagens citadas anteriormente. Porém, a expectativa de aumento na safra vai além da produtividade, baseando-se na recuperação de áreas degradadas por pastejo intensivo, por meio da integração lavoura-pecuária, as quais estão estimadas em 70 milhões de hectares. Tais áreas serão exploradas com maior eficácia, dado o aumento da capacidade de lotação, na época de pastejo, associadas à produção de grãos, visando à recuperação da pastagem em um ciclo constante, pagando-se o custo com a produção.

 

Diante do tema proposto para o simpósio, qual a importância de um evento que foque o SPD?

No ano anterior pôde-se observar que, além dos estudantes da FAZU, havia uma quantidade considerável de produtores. Portanto, além dos alunos, futuros Engenheiros Agrônomos, o simpósio é uma oportunidade de apresentar aos produtores as diferenças do SPD, com menos de 20 anos no cerrado, com a agricultura tradicional, desde o desbravamento dos cerrados há 40 anos. A participação de pesquisadores e professores das mais diversas áreas transmite os mais novos resultados de pesquisa aos alunos, que breve estarão em atividade no setor, ou seja, é uma ponte entre as pesquisas e a aplicação prática dos resultados.

 

Monica Cussi
Assessoria de Comunicação
FAZU

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